EN ESTE NÚMERO (15)
 
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Cara y Señal #15
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Derecho a la comunicación
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(El lenguaje del desarrollo)
O que esperar da Rio+20

Quebrar a lógica

Em nome do desenvolvimento sustentável, os países centrais, os mesmos responsáveis pela crise mundial sem precedentes, pretendem consolidar o predomínio do mercado sobre todos os seres vivos e coisas.


Por Rádio Comunitaria Independencia

Não é a primeira vez que a retórica do discurso consegue encobrir projetos de poder nefastos da burguesia capitalista. Aqui mesmo no Brasil, nos anos de 1970, juntou-se a religiosidade do povo com o avanço do capital internacional, dando forma ao «milagre econômico» –a farsa do boom da economia responsável– encobrindo o aumento espetacular da dívida externa. Se isso o senso comum não percebia, menos ainda os outros acontecimentos que se sucederam. Enquanto o povo cantava «todos juntos vamos, pra frente Brasil, Brasil, salve a seleção» (era o ano da Copa do Mundo no México –o Brasil foi campeão), lutadores e lutadoras contra um regime odioso, gritavam e morriam nos porões da ditadura.

Qualquer semelhança com os dias atuais não é mera coincidência: Copa – Público – Privado, Desenvolvimento Sustentável, Economia Verde. Novos jargões para velhos interesses, junto com os ar tifícios do discurso ufanista dificultam, à primeira vista, do que ainda está encoberto: relações de exploração reais, internas e externas, que agridem nossa consciência. Tão importante quanto a economia verde como diretriz estratégica de intervenção dos bens da natureza por parte do bloco que está no poder, a Rio+20 foi preparada para consolidar a hegemonia do capital imperialista, tendo a Dívida Externa como instrumento importante para uma rearrumação do poder global e das diferentes categorias de subalternidade.

Os vampiros da crise –os bancos multilaterais, em especial o Banco Mundial (BM) a par dos Fundos criados e incentivados por este– têm aportado, além de mais recursos, tecnologia do conhecimento, com o fim de garantir que o crescimento econômico planejado a partir dalí, não sofra mudanças de rota. As grandes corporações, também estimuladas por esse pensamento, buscam lugar es aonde lhes sejam oferecidas as melhores condições para a obtenção de mais lucros. Cresce o campo da responsabilidade social e ambiental empresarial e do empreendedorismo, instrumentos que têm contribuído para destituir as pessoas de seus direitos e para abafar a influência dos movimentos sociais na gestão de políticas públicas e no controle social. Cresce também a participação de grupos e de ONGs nos projetos e fundos das instituições financeiras. O BM por exemplo, aumentou de 6% para 50% a participação de ONGs em seus projetos relativos à questão climática.

Isso significa uma absorção cada vez maior das demandas das organizações da sociedade civil, ajustandoas à sua estratégia de liberalização da economia rumo ao mercado verde. O caminho do verde já está decidido; não vamos nos iludir. O próprio Secretário Geral da Rio+20 já alerta os países desenvolvidos (aqueles que não vivenciam a crise financeira), que terão de «se empenhar muito mais.» Na verdade, a economia verde é tratada por esses países como se fora uma Ajuda Humanitária, a qual dependerá do acolhimento irrecusável dos países «em dificuldades», que não poderão «atrasar» a sua efetivação. Esta não virá para discutir pr ocessos e sim, para cobrar resultados.

Tremo ao escutar daquele Secretário que «o desenvolvimento sustentável é o futuro que queremos». Futuro sombrio para muitos povos, basta ver a tinta carregada de «econoverde» que escor re entre os dedos dos produtores intelectuais das grandes catástrofes. O Estado, aliado com a mídia, tenta neutralizar com os mais variados artifícios, as poucas chamas da insatisfação popular, aquelas que «correm por fora» daqueles movimentos que, mesmo com a força que conseguiram acumular historicamente, não são capazes de acreditar que é possível quebrar a lógica desumana do modelo de relações sociais, ambientais e de produção e consumo.

Em verdade, o desenvolvimento sustentável nessa perspectiva, precisa do verde para se sustentar, mas precisa também de um comando com a eficiência na medida, onde todos os vetores do conhecimento estejam vinculados a um poder central e centros estratégicos de poder a partir de uma geopolítica afinada, a serviço deste. Não é só o futuro da economia que interessa decidir, daí a relativa importância do Fórum de Davos nesse contexto. Na Rio+20 vai ser decidido e com o aval de muitas organizações da sociedade civil, o modo de operar da economia e da política. A questão que se coloca como desafio para quem ainda se indigna é: o que está sendo proposto para a Cúpula dos Povos (iniciativa dos movimentos sociais mundiais paralela à Conferência oficial) dá conta da necessidade ur gente de se construir coletivamente, saídas para a situação em que nos encontramos? Dá conta de nos contrapormos à «Economia Ver de Inclusiva», como quer a Comissão brasileira na Conferência? Dá conta de mostrar a nossa indignação? O que está sendo proposto para a Cúpula dos Povos é, de fato, a agenda aonde se instaura o conflito? Cúpula dos Povos só tem sentido se, de fato, for constr uída desde o local, pelas pessoas que sentem diretamente, os processos que vão, a passos largos, lhes retirando os sentidos que organizam suas existências.

Ninguém melhor para dizer como era e como deveria ser o desenvolvimento de uma cidade, do que as pessoas que respiram o metano e outros metais tóxicos produzidos pelas siderúrgicas, termoelétricas e refinarias; quem bebe a água podre que vem dos rios poluídos pela falta de saneamento básico; quem não mais pesca porque os peixes estão mortos ou escassos em função da construção de megahidrelétricas; quem corre todo dia, o risco de ser vítima de um trânsito caótico, porque mobilidade urbana é menos prioritária do que um mega aquário; quem se sente acuado, removido e despejado pelos latifúndios improdutivos e por grandes empreendimentos de infraestrutura nas cidades. São esses os sujeitos SemCúpula, que precisam ser escutados.  •




 
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